segunda-feira, 4 de abril de 2011

Ensurdeça-se.

Ensurdecida ouço suspiros de suplícios, histórias descritas em um bar qualquer, sobre uma mesa onde os suplícios se transformam em lágrimas que caem sobre um copo agora vazio. Estorcida. Ensurdecida. Desvairada. Suplicando-me.
Morbidez, queria gelar sobre esta mesa. Congelar a lágrima que já se secou antes mesmo de cair sobre o copo agora vazio, pela força terrena que torna tudo no pior, talvez tudo agora seja o pior.
Ensurdecida, enlouquecida ouço berros e suplícios por nada mais que um sorriso; mas este, se sente perdido pois o mundo não ensurdecido, escuta, mas não ouve.
Gritos vagam por eternidades sobre uma imensidão de átomos, de cosmos, de vácuos, eles vagam... E já ninguém repara, pois este mundo não ensurdecido não consegue mais viver, apenas existem e não sentem o ar que a cada instante passa crianças que por nós, ele se torna impercebível. O ar faz com que vivemos, e mesmo assim, não suplica nada em troca. E este então é invisível, não existe. Tudo o que não vemos, não existe. Minha lágrima agora que caíra sobre este papel, não existe. Você não viu. Você não sentiu. Você não sente os suplícios de milhares de crianças, porque você não vê, você não sente. Você não ouve. Não vive.
Prefiro viver em meu mundo ensurdecido, que realmente ouve. Do que viver em um mundo que escuta e não ouve. Prefiro deixar minhas lágrimas caírem sobre este copo, agora não vazio, e sentir. Tudo o que você não sentiu. Beba-se . Coma-se . Seja-se. Ensurdeça-se .

Irys Dufner Lage

Um comentário:

Sumaia Debroi disse...

Querida Irys, bom dia!
Conforme sua autorização, seu texto já seguiu para o jornal "O Conquistense".
Beijos no coração e parabéns!
Sumaia